quinta-feira, setembro 06, 2012

Pierrot e Arlequim

Olá, seres.

Meu peito estava carregado de medos e horrores até que escutei esta bela música e sai saltitando pelas ruas cheias de monotonia cinza. Não me assustei quando percebi que a música ecoava dentro de minha própria pessoa, mas perguntei-me, como podem os outros tantos indivíduos não a escutarem também? Como podem ignorar esta flauta que em cada nota revela um segredo milenar? Ou como podem não se emocionar com o choro do bandolim que lava a terra?
Saltitei e rodopiei com a mão esquerda dada ao frenesi da felicidade, mão direita à eterna melancolia, a qual vez ou outra mostra-se, mas prefere mesmo esconder-se num canto qualquer de meus glóbulos oculares.
Um riso escapou-me pelos lábios, um riso sem porquê e sem etiqueta. Sem dentes branquíssimos e perfeitamente alinhados. Surgiram então os rostos severos daqueles que tiveram a alma aprisionada há tempos, e quanta censura! Quanta censura imersa em hipocrisia e frustração, um discurso de palavras ruminadas e maçantes. Frases prontas que estão sempre a serem vomitadas, poluindo o mundo e a vida.
Benditas sejam as estrelas por estarem distante de tudo isso, apenas observando quando melhor lhes convêm! Bendita também seja a Lua com seu silêncio salvador...

Então corri. Corri dos carros e das construções, e de toda a opressão que sufoca.

Mão esquerda. Arlequim - abraçou o mundo, tentando encher cada milímetro deste de risos estridentes e brilho nos olhos.
Mão direita. Pierrot - nunca conseguiu abraçar este mundo imenso e insano, cujas inúmeras tonalidades de cinza danificaram o seu miocárdio.



sábado, agosto 18, 2012

Colateral

Olá, seres.

Devo adiantar e informá-los de que meu horário de encontro com Morpheus e suas adoráveis ninfas está absurdamente caótico, portanto, perdoem-me -ou não- por minhas alucinações solitárias, coletivas e estatais. 

Levantei, acendi um incenso e dirigi-me ao terraço. Meio céu escuro, meio céu claro.
Avistei algumas estrelas preparando-se para sua retirada deste recinto ocidental, e dentre elas, avistei Vênus e lembrei-me de Camões, o qual com sua esfinge vem devorando a nós, pobres mortais, durante bons séculos.
Inspirei-me então e vim contar um breve romance, embora eu não saiba por onde começar. Entretanto, outrora, nesta mente que vos pensa -escreve, diz e mente- houvera mil romances que poderiam muito bem aqui serem compartilhados com quem quer que fosse. Mil romances, todos eles com seus mil finais, dentre os quais nem a minha própria pessoa poderia com precisão afirmar o eleito. Tempo ao tempo, os ditos cujos esvaneceram-se, salvo algumas exceções que, por ousarem o extremo da loucura, permaneceram intactas aqui, em mim...
Tomei um chá para tentar amenizar os efeitos terríveis que os antibióticos causaram ao meu pobre estômago. Tomei um gole e sentei-me por aqui, dizendo olá e tentando terminar o que comecei.

Pois bem, vou aqui contar um breve romance, o qual, na verdade, deveria ser um conto que, em suma, não existe.

terça-feira, julho 24, 2012

I could not bring my passions from a common spring

Hoje não haverá olá, seres.

Não haverá discursos politicamente conscientes porque a vida já é cheia de politicagem maçante.
Não haverá palavras sobre a descrença na humanidade porque já conhecemos bem as inúmeras razões para tal.
Não haverá minha máscara militante gritando tudo o que os pseudos-intelectuais/esquerdistas já dizem saber.

Hoje é Lalesca nua e crua através dessa tela fria.

Morri por alguns míseros segundos, então ressuscitei para contar aos que quisessem ouvir falsas promessas sobre o Lado de Lá, e mesmo se tivesse visto algo, não ousaria quebrar todo o mistério acerca do mundo desconhecido - e temível àqueles presos à própria carne e ossos -.
Depois desfiz-me de meu cárcere e fui espalhada pelo vento na direção de todos os pontos cardeais, colaterais, bilaterais, transcendentais. Descobri o mundo, e ele se quer me notou, assim como não nota a mais ninguém.
Congelei e queimei, mas a dor não pertencia à minha mente.
Desintegrei-me e fui em direção ao Cosmos, fugindo dessa borda brega da galáxia. Fugindo eternamente, até achar-me presa aqui novamente, só que desta vez sem tanta frustração porque os campos eram meus e o riso, um segredo em meus lábios.
Esqueci um pouco da melancolia e permiti a mim mesma cegueira e surdez momentâneas, e em meus rodopios incessantes cai no Nada, conversamos através dos tempos e não obtive resposta alguma às minhas perguntas filosóficas. O Nada não me aquieta a alma, conclui, indo-me embora pelo caminho das pedras que eram de inúmeras cores, menos amarelas.

Achei que tivesse morrido por alguns míseros segundos, mas lá longe ainda pude sentir a minha pulsação.
Então acordei e vi um dia velho.


segunda-feira, março 26, 2012

Vinte e seis do três.

Olá, seres.


Ponho-me a escrever novamente. Reacender essa chama literária que sempre esteve no meu ser, mesmo que quase escassa, mas sempre lá, sempre aqui. Textos bucólicos de um entardecer? Textos nus que mostrem a pulsação urbana? Textos surreais...? Textos que já foram músicas, que já foram ditados cheios de rimas pobres, que já foram rabiscos ininteligíveis. Textos escritos a lápis, colorido ou não, à caneta, à máquina. Textos que nunca foram para papel ou arquivo algum, e que apenas ficaram voando em minha mente e nela se alojaram. Tudo depende do meu espírito, do meu cárcere, do meu dia, das pessoas do meu dia. Depende de cada segundo e minuto, se algo foi dito ou calado, se reparei ou ignorei o mendigo na sarjeta xingando e fedendo, se escutei o músico de rua, ou se fui mais uma da multidão robotizada. É cada segundo do dia que me mostrará o que devo escrever, ou apenas o respirar. Às vezes quero escrever sobre algo apenas por estar respirando e nada mais, apenas por existir. Embora, ei de convir, que apenas o existir é entristecedor demais porque existir não é sinônimo de viver, ou ao menos sobreviver. Existir é apenas estar, e apenas estar é enlouquecedor porque você vê o Tempo, e ele não te vê. Na verdade, ele passa despercebido por você, porém sempre movimentado os ponteiros do seu relógio. Então você observa o Tempo, observa o seu próprio relógio, observa o dia passar, a noite chegar e ir embora, e você apenas esteve ali, paralisado, sem mais ser dono de si. E quando se percebe, caro caríssimo, que você não está vivendo a sua vida, nem ninguém mais está, você enlouquece, e  tenta agarrar o real, mas em suas mãos há garras e o real é pura seda, e não há voz saindo de sua boca quando você grita, e é como se você nem ao menos estivesse mais lá. Começa a corrida atrás do Tempo, atrás do real e da sua própria voz, e caso não corra, você nunca mais voltará. 
Então corra, caro caríssimo, corra porque o coelho branco já enveredou-se pelo buraco.




quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Ópio

Olá, seres.


Aos trancos e barrancos o Produto do Meio tem sobrevivido e existido e tem sido prova fiel de um bordão meu "O ócio é o ópio". 
Sim, o ócio é o ópio...  Pois todas as minhas palavras ficam gravadas na minha mente, ou anotadas em algum bloco. Elas ficam por todo lugar, menos por aqui. Parece que toda essa tecnologia e mecanização desativa qualquer manifestação criativa, então passo horas a fio a pensar e pensar no próximo tema da próxima postagem para os possíveis leitores, isso sem contar com aquelas regras padronizadas para a estrutura de uma excelente redação e outros reflexos pós-vestibular que me travam, afinal, sempre fui adepta do fluxo de consciência, e depois de um ano inteiro tendo de escrever de uma maneira totalmente estruturada, a minha consciência ficou um tanto pré-programada, infelizmente. E o fluxo de outrora já não flui com tanta facilidade, embora as palavras e ideias estejam percorrendo todos os cantos da minha mente... E por que não passar a tarde lendo, ou assistindo um filme e se qualquer pensamento me vier, anotá-lo, ao invés de ficar aqui sentada nessa cadeira, dentro de casa, neste calor infernal carioca, espremendo até a última gota do bagaço da laranja? Porque eu necessito dessa laranja, porque essa laranja é parte do que sou e porque me recuso a me desfazer das coisas só porque estão fluindo menos - ou nada -. 
Acima de tudo, porque há coisas a serem ditas - mesmo que ninguém irá escutá-las ou lê-las -, há milhares de coisas a serem ditas, mas que são abafadas pelo correr apressado do ritmo da civilização. Ninguém pára para viver de fato, só se respira e existe, e eu me recuso a só respirar e existir, recuso-me a ter esse ritmo incorporado em mim contra minha vontade.
Apesar do calor que tem feito, tem se feito belíssimas noites e aposto que muitas pessoas não repararam nisso, seja porque estavam vendo a suas santas novelinhas ou assistindo mais um episódio imperdível do BBB12, seja por qualquer outra banalidade. Aposto que muitas não se deram ao trabalho de olhar para o alto e contemplar a lua e estrelas, de sentir a brisa desse final de verão. 
É por isso que não somente eu, mas todos aqueles que sentem e vivem, devem continuar a falar, a mostrar, e não podemos nunca deixar que nosso ópio seja o ócio. O nosso ópio deve ser a imaginação e todo um prisma de cores, deve ser conseguir ver a realidade como ela é,  cheia de dualidades de bem e mal.
Esse é o meu ópio, o meu vício, viver. E sobreviver.


Espero estar mais presente, até outro post.