terça-feira, agosto 27, 2013

Poça d'água

Eu me vejo nessa poça d'água sempre turva numa imagem disforme e inconstante que se guia vez e outra pela lua.
Eu que me vejo, mas também não vejo, e atrás dos olhos refletidos há apenas mais água e no fundo, concreto. 
Você que não se vê, que não se sente, não respira, não vive.
Você cujos sonhos não existem, e os que existem foram implantados por terceiros.
Nós que não pensamos e somos contagiosos em nossa ignorância.
Arranquemos esta pele de cordeiro e vivamos como lobos.
Arranquemos esta crosta pútrida e corramos nus.
Arranquemos nosso espírito deste cárcere.




sexta-feira, agosto 23, 2013

110

Às vezes eu me canso, minha cabeça dói, minha língua enrola e só consigo balbuciar frases prontas e patéticas, palavras vazias. Sinto vertigem.

Às vezes eu me canso, a cabeça dói, falo baboseiras, mas mesmo assim a mente não sossega, nunca. 

Às vezes fico de saco cheio de mim mesma, pensando "Lalesca, por que você não cala essa massa cinzenta?", mas não consigo. 
Não consigo me concentrar num mantra para meditação, visualizar uma cena, ou imagem, específica, porque paralelamente outra vai se formando fora do meu controle, e é geralmente mais intrigante, interessante. 

Quando tento parar e respirar, o quê é externo me inunda.

segunda-feira, agosto 19, 2013

quinta-feira, agosto 15, 2013

O Tempo não existe



"O tempo não existe." , pausa para o momento dramático da reflexão, e contemplação, sobre a afirmação polêmica e tão peremptória.
Milhares de teses se passaram, e ainda passam, na cabeça castanha e negra daqueles dois jovens, criando margem para ambos os gumes dessa faca tão afiada - tempo. Sentados num pequeno sofá cinza que em muitas tardes propiciava a um, ou outro, uma breve soneca e abstração do consciente - esperando o tempo passar -, conversavam sobre esquemas acadêmicos, conhecidos por qualquer aluno que se preze, engenhosamente articulados. Tudo daria certo, se houvesse tempo, mas esse não existe.
Pausa dramática, reflexão e contemplação. A complexidade, e o risco do desencadeamento de um processo esquizofrênico, deixava a frase bela e ironicamente pairada no ar. O tempo é escárnio. Talvez, se fechar os olhos, ele não exista de fato, mas suas engrenagens são concretas. Então é real - ou não.
"É uma grande questão. É muita responsabilidade afirmar uma coisa dessas", um dos jovens comentou. Na verdade, "tempo" era a palavra que mais vinha martelando em sua mente, trazendo junto consigo, ou justamente sendo trazido por, todas as implicações paralelas ao fato de sua existência, e ele já estava cansado. Cansado dessa loucura que marcava os dias, seguindo uma lógica que ele não estabeleceu e não compreende, não aceita, muito bem.
O outro jovem, com os olhos perdidos e arregalados observando a frase ali no ar, também possuía uma certa disfunção em sua massa cinzenta devido à tais reflexões. Talvez o tempo não exista, mas a fé posta nessa ideia a torna real o suficiente para assim o ser; talvez essa corrida desnecessária seja a prova de um desequilíbrio e desarmonia crônicos entre os ponteiros mecânicos, representantes concretos do tempo, e a humanidade.
O dia foi passando, os jovens no pequeno sofá sentados, a questão zanzando pelo recinto. Esquemas estabelecidos, descontraíam-se com Glauber, Hélio e Di. As palavras ainda lá. Ao final da tarde prepararam-se para sair e vaguear, iriam tomar uma cerveja, ou apenas uma água, quiçá um café. A esfinge os seguia, e eles sabiam, mas não ousavam invocar o pequeno demônio novamente. No fim ninguém se aguenta:
"A culpa é de Sartre."
"Certamente."