"O
tempo não existe." , pausa para o momento dramático da reflexão, e
contemplação, sobre a afirmação polêmica e tão peremptória.
Milhares de teses se passaram, e ainda passam, na cabeça castanha e negra
daqueles dois jovens, criando margem para ambos os gumes dessa faca tão afiada - tempo.
Sentados num pequeno sofá cinza que em muitas tardes propiciava a um, ou outro,
uma breve soneca e abstração do consciente - esperando o tempo passar -,
conversavam sobre esquemas acadêmicos, conhecidos por qualquer aluno que se
preze, engenhosamente articulados. Tudo daria certo, se houvesse tempo, mas
esse não existe.
Pausa dramática, reflexão e contemplação. A complexidade, e o risco do
desencadeamento de um processo esquizofrênico, deixava a frase
bela e ironicamente pairada no ar. O tempo é escárnio. Talvez, se fechar os
olhos, ele não exista de fato, mas suas engrenagens são concretas. Então é
real - ou não.
"É uma grande questão. É muita responsabilidade afirmar uma coisa
dessas", um dos jovens comentou. Na verdade, "tempo" era a
palavra que mais vinha martelando em sua mente, trazendo junto consigo, ou justamente
sendo trazido por, todas as implicações paralelas ao fato de sua existência, e
ele já estava cansado. Cansado dessa loucura que marcava os dias, seguindo uma
lógica que ele não estabeleceu e não compreende, não aceita, muito bem.
O outro jovem, com os olhos perdidos e arregalados observando a frase ali no ar,
também possuía uma certa disfunção em sua massa cinzenta devido à tais
reflexões. Talvez o tempo não exista, mas a fé posta nessa ideia a torna real o
suficiente para assim o ser; talvez essa corrida desnecessária seja a prova de um
desequilíbrio e desarmonia crônicos entre os ponteiros mecânicos, representantes
concretos do tempo, e a humanidade.
O dia foi passando, os jovens no pequeno sofá sentados, a questão zanzando pelo
recinto. Esquemas estabelecidos, descontraíam-se com Glauber, Hélio e Di. As
palavras ainda lá. Ao final da tarde prepararam-se para sair e vaguear, iriam
tomar uma cerveja, ou apenas uma água, quiçá um café. A esfinge os seguia, e
eles sabiam, mas não ousavam invocar o pequeno demônio novamente. No fim
ninguém se aguenta:
"A culpa é de Sartre."
"Certamente."