(na verdade, a sensação é de algo que te suga de dentro pra fora)
As folhas leves e douradas caem dançando, revelando almas distantes que perdi pelo caminho. Aqui, nesse prédio neoclássico exibicionista, o silêncio é uma memória.
Sobre as folhas douradas: uns pegam as folhas para si, a beleza eterna e esquecida no baú de quinquilharias. Outros as partem, expandindo a beleza pelo chão de mármore. Já as crianças, essas se misturam e tornam-se as próprias folhas douradas.
O fotógrafo perdeu uma cena linda: nossos olhos seguiam a trajetória das folhas, tímidos pela vida adulta, enquanto as mãozinhas da infância estendiam-se ao ar, esperando o tempo colidir consigo mesmo para apanharem as folhas que caíam. As crianças têm uma própria linguagem, brilhante demais para nós, os outros, conseguirmos entender.
Perdoe-nos, crianças! Nós conseguimos ser miseravelmente sérios em nossa tristeza particular. Perdoe-nos por percebermos as folhas quando elas já estão estateladas no chão.
A magnitude da abóboda, quando realizada, é vertiginosa. E pesada. Pesa em meus olhos, pesa em minha noção espacial. É absoluto o contraste entre o concreto e a folha. No meio do saguão há uma luz alaranjada que vem de fora, dos raios solares que ainda não morreram.
(a melancolia é tal qual uma erva daninha)
Tudo o que nos é belo precisamos possuir, não há beleza em liberdade para nossos olhos tecnológicos e mãos nervosas. A luz termina de morrer aqui dentro, dentro desse saguão majestoso que comporta os oposto e os exibe como numa vitrine. Ao mesmo tempo que exibidos, porém, escondem-se, esgueiram-se por pilastras frias e clichês.
Nós somos solitários.
(Nós não somos solitários)
Quando colocamos a cabeça sobre nosso travesseiro, nos fechamos em nós mesmos.
(Quando outros milhares colocam suas cabeças sobre seus travesseiros, fecham-se em si mesmos)
Nós somos solitários.
(Nós não somos solitários)
Há pessoas que guardam migalhas da beleza para si.