Mataram
os meus deuses. Deixaram-os perante mim como espelhos quebrados, e dessa vez, a
ideia, já implantada, florescida, jamais me permitiria seguir adiante olhando
para trás. Para todos os deuses, mortos.
A
ideia da ausência dos deuses no mundo sempre foi angustiante. Eles nos
deixaram, por que nos deixaram? Agora vejo que eles nunca estiveram, não como
imaginávamos, como cultuávamos. Eles nunca nos deixaram, porque eles nunca
existiram. Eles nunca nos deixaram, porque sempre foram frutos de nós mesmos.
Os deuses, então, morreram. E sofri o luto de sua perda, sofri a chuva sem
divindade, sofri os mares pelo o que eles são, água. A vida nunca esteve tão
mediocrimente simples, e incontestável.
Como
posso viver agora que a razão faz tanto sentido? Meu lençol de misticismo
frágil virou cinzas quando o dia raiou cruel. Na verdade, a razão sempre fez
sentido no cantinho da minha mente, mas sem ideias devidamente apresentadas era
sempre fácil deixá-la lá, escondida, esquecida. Não mais. Não mais agora que
meu lençol virou pó e nunca foi fênix. Não mais agora que tudo se encaixa
perfeitamente bem, e sem divindades. Sem divindades! A Natureza já se explica por
si só.
Caiu
uma gota, no centro da minha coroa. Uma gota tímida e corajosa, que iniciou a
queda em solidão, mas logo foi seguida por várias outras gotas. Chuva. A chuva
fria que lavava os túmulos dos meus deuses, que lavava da terra os seus restos despedaçados,
que dissolvia minhas cinzas. Chorei de dor. Nunca imaginei que a razão poderia
ser tão seca e ríspida, talvez imaginei sim, por isso nunca dei ouvidos à ela. Não
mais, porém.
As
gotas não paravam. Seus oxigênios e hidrogênios vinham colidir em mim, que em
minha composição também carrego oxigênios e hidrogênios. Eu carrego a chuva em
mim. Eu também partilho da chuva ainda lá em cima. Ri e chorei como uma criança
assustada, como quem se perde e quem se acha.
God is still in the rain.