quinta-feira, março 19, 2015

God is in the rain



Mataram os meus deuses. Deixaram-os perante mim como espelhos quebrados, e dessa vez, a ideia, já implantada, florescida, jamais me permitiria seguir adiante olhando para trás. Para todos os deuses, mortos.
A ideia da ausência dos deuses no mundo sempre foi angustiante. Eles nos deixaram, por que nos deixaram? Agora vejo que eles nunca estiveram, não como imaginávamos, como cultuávamos. Eles nunca nos deixaram, porque eles nunca existiram. Eles nunca nos deixaram, porque sempre foram frutos de nós mesmos. Os deuses, então, morreram. E sofri o luto de sua perda, sofri a chuva sem divindade, sofri os mares pelo o que eles são, água. A vida nunca esteve tão mediocrimente simples, e incontestável.
Como posso viver agora que a razão faz tanto sentido? Meu lençol de misticismo frágil virou cinzas quando o dia raiou cruel. Na verdade, a razão sempre fez sentido no cantinho da minha mente, mas sem ideias devidamente apresentadas era sempre fácil deixá-la lá, escondida, esquecida. Não mais. Não mais agora que meu lençol virou pó e nunca foi fênix. Não mais agora que tudo se encaixa perfeitamente bem, e sem divindades. Sem divindades! A Natureza já se explica por si só.
Caiu uma gota, no centro da minha coroa. Uma gota tímida e corajosa, que iniciou a queda em solidão, mas logo foi seguida por várias outras gotas. Chuva. A chuva fria que lavava os túmulos dos meus deuses, que lavava da terra os seus restos despedaçados, que dissolvia minhas cinzas. Chorei de dor. Nunca imaginei que a razão poderia ser tão seca e ríspida, talvez imaginei sim, por isso nunca dei ouvidos à ela. Não mais, porém.
As gotas não paravam. Seus oxigênios e hidrogênios vinham colidir em mim, que em minha composição também carrego oxigênios e hidrogênios. Eu carrego a chuva em mim. Eu também partilho da chuva ainda lá em cima. Ri e chorei como uma criança assustada, como quem se perde e quem se acha.

God is still in the rain.