Quando encarei aqueles olhos de mel felinos, soube que eram ciganos e que enveredariam em andanças o corpo e a alma. Reconheci todos os feitios e os trejeitos de andarilha insaciável, e naquele instante miserável não a perdi entre a concreticidade e os vultos da cidade. Tinha ossos de passarinho e riso farto de cortesã romantizada.
Segui, pesada dentre tantas correntes, seus passos dourados pelas avenidas e ruelas frenéticas. O peito singelo aspirava toda a vida, do alto e do baixo, absorvia as delícias quase secretas dos pequenos detalhes, e a putridão, que tanto lastimo, não fazia ranhura em sua face. Era nobre, e também plebeia dos pés calejados; entrava em comunhão com a beleza e a feiura. Gozava. Era linda. Gozava entre os corpos estáticos e cinéticos, e eu me maravilhava.
À noite o frio não lhe alcançava a pele, pois seu sangue era quente e boêmio, pois punha-se a bailar feito fada com os fantasmas e os diabos e deus. Os pés tilintavam nas pedrinhas portuguesas não somente ao som do bandoneón, mas ao de um serenata inteira, e nas ruas vazias ela era um eco inquieto de tudo o que já não estava e não era mais, e das sarjetas fazia erguerem-se memórias espectrais que em colapso faziam entrar o Tempo.
Ela nunca estava sozinha, embora a solidão também lhe vestisse bem. Estava lá integralmente de braços dados com a vida. Quanta audácia! Não era angústia que lhe pendia do peito, mas um desejo insensato de ser em plenitude, daí percebi que também era bailarina e que havia aprendido a equilibrar-se sobre o fio de nilon.
Às vezes me perco nos dias e não a vejo dentre a multidão, dentre o vazio espectral, mas lembro dos olhos vivazes e desejosos e do riso que preenche. Com certeza ela diria: "Sua boba, 'ranque fora esses sapatos de chumbo, tu também é andarilha!".
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