quarta-feira, julho 13, 2016

Gárgulanatardedeterça

Viagens esquizóides. Assentos solitários de desvairios. Gárgula. Empoleirada num canto esquecido. Passam rostos, passam corpos. Eu, amor e raiva. Passa Tadzio, onde me deleito insana no tédio das quintas-feiras vazias. Registro de belezas que se esqueceram, registros para que no papel, e no futuro de mim, elas se perpetuem.

A estranheza é a forma de estar no mundo mais suportável. Ver com olhos... com olhos caleidoscopicais.

Hoje, solidão. Não. Hoje, eu. E os devaneios, e os fantasmas que nunca foram, nunca viveram. E muita informação, vozes que se dissipam e se manifestam longe de mim. Passos, passos, vidas, palpitações como quando eu brincava de esconde-esconde. O medo também de nunca me encontrarem e esquecerem de mim, um eco perdido. Outro medo: cabra-cega. Eu, de olhos vendados, todos foram embora, só os risos. Que lembrança infeliz. Corri, cheia de vergonha e raiva. Crianças pode ser socializadas com muita crueldade.

Me perdi. O corredor está tão vazio. Os olhos se perdem, e crio a suspensão temporal. Toca Mahler. Para Sempre. Palmas! Palmas!
Pierrot e Arlequim nasceram com as almas e os corpos trocados, a lua assiste e ri da desgraça.

Te fazer poesia. Poesiar o delírio, a ilusão. Recriar fotografias mentais. Transferir para outra matéria, para outro domínio. Te fazer poesia. Amores imaginários e sorrisos bobos de canto de rosto, um segredo, um cumprimento, reconhecimento.

A criação de personagens, a impersonificação de personagens, de vitrais esplendorosos que falam de uma crônica que não foi possível dentro da realidade da vida, mas cuja existência é garantida através do plano das ideias. Degusto-te. As lembranças estão aqui, na minha boca, pousadas e dissolvidas em minha língua tal como uma hóstia-ácido.

Meu ponto.

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Adeus, Tadzio

Adeus, Tadzio.
Obrigada pelos entardeceres.

Minhas letras tremiam pelo papel, meus olhos em brasas, o ar como um bloco úmido e tenso. Adeus, Tadzio. Você se levanta, passa por mim, sou um fantasma, um espírito à espreita. Respiro o ar endurecido, puxu-o com a força de mil pulmões, com todo o medo de um estômago acidificado. Ponho outro rosto, escolho, em frações de segundos, de quem irei me vestir: a loucura juvenil, sim. A jovem louca (e fada).
Toco a criatura, quimera é palpável. Ouso tocar (que tolice minha, eu que te pari!). Nega-me os olhos, mas não me nega por inteira. Aqui. Tome. Um pedaço da minha própria beleza, para você.
Sóbria desci por escadarias infinitas como bêbada.
Não fugi de ti, Tadzio. Fui bailar com minh'alma pelas noites. Te dei adeus e fui bailar a valsa mais linda que poderia haver, a valsa dos enfeitiçados, dos anjos que vagam desafiando os terrores.
Sua beleza, sua ideia, viverão para sempre, mas eu preciso morrer (e renascer) de tempos em tempos. Você pertence à eternidade que humano algum conhecerá. Eu pertenço ao tudo, ao nada, ao tudo, ao nada, ao rodopio espiralante.

Adeus, Tadzio.
Obrigada pelos entardeceres. 

sábado, janeiro 16, 2016

Tadzio

Musos e amores atemporais. 
Símbolos.

As palavras ainda são insuficientes, talvez elas nunca consigam transcrever a experiência da imagem do olhar, do segredo de dois que existe apenas em um. 
Aos musos, aos mensageiros da beleza desconhedida e divina que se revela como um sol em triunfo e esplendor, meus sinceros agradecimentos. 
Há um horizonte que nossa mortal humanidade ainda não nos permite vislumbrar. Um horizonte de formas e sensações apontado pelas mãos lânguidas. Tadzio. 
Você sempre será, sempre existirá, transmutando-se para outros corpos, outros lugares, outros tempos.
 
Tadzio, terror e êxtase.
Tadzio, o divino em imagem. Simulacro. 
Crepúsculo. Aurora. 

Morrer em Tadzio. Renascer de Tadzio.