segunda-feira, junho 25, 2018

Para Ismália


Ah, Ismália... Te vejo no alto daquela torre há anos, na iminência do salto. Observei e observei durante anos cá debaixo, impotente diante da beleza. Sua beleza, não a da Lua que te enfeitiça e deslumbra. Tua beleza, Ismália, de cabelos esvoaçantes como nuvens em tempestade, teus olhos distantes não mais desse mundo, os braços frágeis e delirantes, as mãos em garras de filhote tentando apanhar o infinito...

Te vejo há anos no alto da torre. Te vi a minha vida inteira no alto da torre. Corri desembestada contigo por todas os caminhos cheios de pedregulhos e depois cheio de areia, joelhos ralados... Nos pés da torre parávamos, você subia e eu ficava. Aqui embaixo. Vi você ensaiar esse salto inúmeras vezes. Nunca ousei te dizer “não pula!” porque eu sei, lá dentro, no canto Ismália dos meus olhos e do meu âmago, que teu salto também é meu. 

Vou subir essa torre, Ismália. Seu giro canta e ecoa por essas pedras cheias de limo. Subo os degraus, a noite é fria, dá para sentir nas pedras. Meu deus, eu sei o que está lá em cima, meus pés não páram mais, a música suga meu corpo junto pelas escadarias espriladas. A torre sobe, eu junto com ela, até chegar lá. Lá no topo. Até chegar em Ismália.

Ismália.

Ismália.

Ismália.

Ela não é uma jovem. É um ser imenso, é quase Lua. Ser imenso que luta para se libertar dessa pele de moça frágil. Seus olhos, Ismália... que terror reconhecer tanta coisa neles. O céu é teu, Ismália, as estrelas, o celestial... Te vejo. E vejo ela, a Lua. Ismália gira e dança, nos pés pequenos pregos e na cabeça pequenos espinhos. Lua! Lua! Lua! Nos acuda! Nos acuda! Ela é distante, como todos os seres perfeitos. Ismália gira, me envolve em seus braços e me roda, meu corpo também já não cabe mais.

Ela canta. Ismália, junto com as estrelas. Quer voar para o céu, viver entre suas irmãs... Vê! (ela grita!) Vê! Aponta para baixo, eu já sei o que ela viu. Li teu poema, Ismália, li teu poema em todas as vidas que vivi. Ismália vê uma Lua no céu, e outra Lua no mar. Ela quer as duas, elas não quer nenhuma. Ismália quer o todo. Ismália quer o nada. Ela vai pular! (meu deus, não vou ter essa coragem, não... não...)Se voar, tem a lua do Céu. Se cair, tem a Lua do mar. Ela se volta e me encara. Realmente me vê. Eu sei, eu sei, eu sei... sempre soube. Ah, Ismália, eu sempre soube. 

Ismália se prepara. Eu vou até o seu parapeito, subo.
Ismália se prepara. Vejo as asas saírem de suas costas. 

As suas asas deveriam ser lindas, deveriam irradiar todas as cores do mundo.
As asas de Ismália são membranas albinas e translúcidas, mais finas que uma folhinha de papel. Nunca foram postas para uso, atrofiaram-se. Eu vejo o que Ismália não sabe. Ela vai voar. Ela não sabe. Mas mesmo com suas asas de filhote morto, Ismália é a força mais linda que um dia eu vivi para ver. Ela não precisa saber, ela tem as asas que precisa.

Eu choro, Ismália. Vou ler seu poema em todas as vidas que eu viver. Eterna. E em todas, irei chorar. O choro vai agarrar na garganta todas as vezes que seus olhos me encontrarem e me verem.
Suas asas ruflaram de par em par. 

Ismália.

Ismália.

Ismália.

Lá embaixo, Ela cuida do corpo frágil à deriva nas ondas.
Vai transformar as asas frágeis em beleza sobrehumana.
Vai ecoar a história.

Sinto as ondas frias do mar no meu corpo, me balançando...