O Tempo passa, caro caríssimo, passa indiferente às mazelas que acometem-se sobre nosso pobre miocárdio e espírito. Vai fluindo num ritmo e lógica compreendidos por ninguém, sem explicações, seguindo o rio com seu barco invisível, enquanto eu, sentada na margem contando estrelas, perco-me em devaneios profundos até achar a mim mesma n'algum ponto, n'algum canto interno do meu corpo e perceber que o invisível já está além da vista.
Olho para as estrelas, tão tentadoras em sua dança milenar, olho para o rio que leva o Tempo, tão apressado, tão alheio à mim, à você, à nós. Meus pés, que não obedecem a minha mente, caminham na direção fluida do rio, caminham tão rápido que não posso perceber nada ao meu redor, e o céu fica esquecido, um teto distante e enegrecido para este cenário. A margem, cujo prisma de cores se encontrava ali instantes antes, não passa agora de um borrão cinza, e permaneceria sendo-o até sabe-se lá quando.
E aqui, nesse pequeno peito, o miocárdio começou a seguir as batidas da inquietude do espírito. Batidas que não sabem o quê querem, muito menos o porquê de sua existência; batidas que desregulam a respiração e dilatam a pupila. Minha mente, um vulcão.
Uma coceira subiu-me a garganta, rasgando de dentro para fora as minhas cordas vocais. Cravei os dedos em meu pescoço, queria tirá-la de lá. Foi subindo e subindo. Foi ao cérebro, destruindo concepções pretensiosas sobre certos mistérios que rondam a vida (o universo, e tudo o mais). Destroçou. Desceu, cortando a língua e arranhando os dentes, rompeu-me os lábios um grito tão doído que eu não estava certa se era meu. Um grito carregado de anos e séculos, e risos. Risos irracionalmente estridentes que mesclavam-se com um choro guardado em calabouços desconhecidos até então.
Prostrei-me de joelhos, sentindo a terra sob mim. Mirei o céu, um silêncio sem respostas. O ar, estagnado. Ouvi o rio, porém. O correr nítido de suas águas, joguei-me nele (eu-Ofélia), na esperança da redenção de pecados nos quais nunca acreditei. Um bloco de concreto destruidor da serenidade, quase uma profanação. Abri os olhos.
Vi a Vida. Passado, presente e possível futuro. O Tempo em seu barco era um boicote, venda e mordaça. A água fluindo de forma calma, mas clara, pelos meus poros, trazendo histórias e cantigas, amores e paixões, sangue e pulsação.
Encarei o abismo, morri nele para nascer dele.
O Tempo, boicote do corpo - da matéria.
Minh'alma, andarilho eterno.
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