Nas baladas do acordeão
francês, na contemplação das paredes brancas da sala de estar com as luzes do lustre
acesas, a mente não se aquietava na realidade do presente, transbordando a si
mesma para fora das paredes cranianas bregas. E quando a mente parava pelo
cansaço que viajar lhe causava após tanto tempo curtida no sedentarismo, os
olhos vagueavam e quando se deparavam com aquela sala de cem anos, a angustia
era tanta que obrigavam a mente a continuar pela sanidade de todos que o tédio já
ameaçava há algum tempo.
A gata confundiu-se com um
suricato quando postou-se em pé sobre a bancada, mais para um bibelô que para um
ser vivo cheio de vontades que os humanos interpretavam erroneamente. Enquanto
isso, o acordeão embalava a fuga desesperada da mente, sua libertação do pão de
todo dia que de tantos dias já havia se tornado algo disforme que os olhos não
reconheciam e o nariz repugnava. E quando chegaram numa rua em descida de
paralelepípedos perfeitamente alinhados e molhados por uma chuva fina que só se
materializava a trinta centímetros do chão, lavando apenas os pecados dos pés,
a mente e os olhos entraram em consenso sobre suas vontades salvo pela
inquietação da curiosidade que lhes tirava a paz sem que percebessem. Desceram a
rua da chuva purificadora, sem olhar para o borrão disforme que ficava para
trás, do qual a cantoria do acordeão continuava a emanar e para sempre assim
seria pois a música já havia decidido nunca mais abandoná-los quando percebeu
que sem ela a melancolia se manifestava como uma erva daninha, consumindo o
melhor de tudo. As casinhas de madeira que ladeavam a rua rangiam com os passos
dos fantasmas sorridentes, afogados em suas próprias lembranças, e que
apareciam através das janelas com os olhos cheios de passado.
A rua desceu até uma praça
com banquinhos de pedra, com balanços que divertiam o vento e a brisa, com
gangorras equilibradas e com um freixo antigo e triste, choroso da sina da
eternidade, conhecedor e saturado de segredos que lhe serviam de raiz. Num de
seus galhos, um pequeno passarinho vermelho escarlate não cantava, mas
prometia revelações do futuro por um punhado de alpiste. Nem a mente, nem os
olhos carregavam algo consigo, então o futuro lhes foi negado, mas ouviram sobre
os segredos antigos de uma das raízes do freixo que saltava para fora da terra.
Ouviram palavras que não conheciam, palavras também antigas e indecifráveis que
enclausuraram a árvore ao silêncio do conhecimento.
A chuvinha parecia nunca
estiar, fazendo pequenos córregos nas sarjetas que iam em direção contrária à
rua em ladeira, desembocando num outro lugar. A mente e os olhos sentaram num
dos banquinhos da praça circular quando um velho cego apontou na direção
contrária da praça, sentando em outro banquinho de pedra a sua frente. A barba
quase chegava ao chão, e sua ponta era molhada pela chuva, os olhos eram
brancos e opacos da cegueira dos muitos anos, e a pele magra e flácida dos
lóbulos das orelhas lhe chegava ao queixo. Da bolsa feita de trapos que carregava
consigo, tirou algumas rosas brancas e um canivete, e passou a tarde inteira tirando
os espinhos, mastigando-os e cuspindo de volta, desmanchando as rosas e jogando
suas pétalas ao bel prazer do vento que as elevavam aos céus e já bem no alto elas
se dissipavam como fumaça enquanto os espinhos mastigados e babados germinavam
no chão da praça e deles brotavam mais rosas brancas que o velho colheu ao
final da tarde, e colocou em sua bolsa de trapos antes de ir embora para onde
quer que fosse. A mente e os olhos não souberam dizer se ele também era um
fantasma, ou era alguma outra figura distinta daquele lugar distinto para o
qual a imaginação e o transe do acordeão francês lhes transportaram.
Quando chegada a hora de
partirem, se recusaram, fugiram para mais longe com pavor das paredes brancas
demais. Correram tanto que se perderam um do outro, e no fim, quando tudo era
um turbilhão de tudo, perderam-se de si mesmos.
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