domingo, maio 11, 2014

Aleatoriedades do tédio acadêmico

Nas baladas do acordeão francês, na contemplação das paredes brancas da sala de estar com as luzes do lustre acesas, a mente não se aquietava na realidade do presente, transbordando a si mesma para fora das paredes cranianas bregas. E quando a mente parava pelo cansaço que viajar lhe causava após tanto tempo curtida no sedentarismo, os olhos vagueavam e quando se deparavam com aquela sala de cem anos, a angustia era tanta que obrigavam a mente a continuar pela sanidade de todos que o tédio já ameaçava há algum tempo.
A gata confundiu-se com um suricato quando postou-se em pé sobre a bancada, mais para um bibelô que para um ser vivo cheio de vontades que os humanos interpretavam erroneamente. Enquanto isso, o acordeão embalava a fuga desesperada da mente, sua libertação do pão de todo dia que de tantos dias já havia se tornado algo disforme que os olhos não reconheciam e o nariz repugnava. E quando chegaram numa rua em descida de paralelepípedos perfeitamente alinhados e molhados por uma chuva fina que só se materializava a trinta centímetros do chão, lavando apenas os pecados dos pés, a mente e os olhos entraram em consenso sobre suas vontades salvo pela inquietação da curiosidade que lhes tirava a paz sem que percebessem. Desceram a rua da chuva purificadora, sem olhar para o borrão disforme que ficava para trás, do qual a cantoria do acordeão continuava a emanar e para sempre assim seria pois a música já havia decidido nunca mais abandoná-los quando percebeu que sem ela a melancolia se manifestava como uma erva daninha, consumindo o melhor de tudo. As casinhas de madeira que ladeavam a rua rangiam com os passos dos fantasmas sorridentes, afogados em suas próprias lembranças, e que apareciam através das janelas com os olhos cheios de passado.
A rua desceu até uma praça com banquinhos de pedra, com balanços que divertiam o vento e a brisa, com gangorras equilibradas e com um freixo antigo e triste, choroso da sina da eternidade, conhecedor e saturado de segredos que lhe serviam de raiz. Num de seus galhos, um pequeno passarinho vermelho escarlate não cantava, mas prometia revelações do futuro por um punhado de alpiste. Nem a mente, nem os olhos carregavam algo consigo, então o futuro lhes foi negado, mas ouviram sobre os segredos antigos de uma das raízes do freixo que saltava para fora da terra. Ouviram palavras que não conheciam, palavras também antigas e indecifráveis que enclausuraram a árvore ao silêncio do conhecimento.
A chuvinha parecia nunca estiar, fazendo pequenos córregos nas sarjetas que iam em direção contrária à rua em ladeira, desembocando num outro lugar. A mente e os olhos sentaram num dos banquinhos da praça circular quando um velho cego apontou na direção contrária da praça, sentando em outro banquinho de pedra a sua frente. A barba quase chegava ao chão, e sua ponta era molhada pela chuva, os olhos eram brancos e opacos da cegueira dos muitos anos, e a pele magra e flácida dos lóbulos das orelhas lhe chegava ao queixo. Da bolsa feita de trapos que carregava consigo, tirou algumas rosas brancas e um canivete, e passou a tarde inteira tirando os espinhos, mastigando-os e cuspindo de volta, desmanchando as rosas e jogando suas pétalas ao bel prazer do vento que as elevavam aos céus e já bem no alto elas se dissipavam como fumaça enquanto os espinhos mastigados e babados germinavam no chão da praça e deles brotavam mais rosas brancas que o velho colheu ao final da tarde, e colocou em sua bolsa de trapos antes de ir embora para onde quer que fosse. A mente e os olhos não souberam dizer se ele também era um fantasma, ou era alguma outra figura distinta daquele lugar distinto para o qual a imaginação e o transe do acordeão francês lhes transportaram.

Quando chegada a hora de partirem, se recusaram, fugiram para mais longe com pavor das paredes brancas demais. Correram tanto que se perderam um do outro, e no fim, quando tudo era um turbilhão de tudo, perderam-se de si mesmos.

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