A Morte veio me visitar.
Deixou sua lustrosa foice ao lado da porta, pendurou o capuz de sombras no cabideiro, e tirou os sapatos (ela sabe bem que detesto que entrem com o sapato da rua em casa). Seu rosto era o mesmo de toda a existência, e só foi preciso um resmungo seu para eu lhe trazer o chá. De hortelã.
Não há como eu lhe descrever a Morte, afinal, estragaria toda a surpresa quando ela viesse lhe buscar, não é mesmo? Quando ela viesse em sua plenitude, com foice e capuz. Nos tornamos íntimas, a Morte e eu, nos encontramos tantas vezes que seria inadmissível não nos reconhecermos. Ela chega, se desfaz de toda a formalidade mórbida de seu uniforme, e toma seu chá. Sempre hortelã.
Conversamos sobre banalidades, sobre o tempo e se vai chover(é provável que sim, diz a Morte, essa parte do globo tem tido dias tão quentes...).
Ela ri com gosto da sua releitura feita pelas artes, "É intrigante como o ser humano, um bichinho tão banal, vez e outra consegue superar a mediocridade. Não me leve a mal, o seu chá é excepcional...". Não ponho açúcar no chá, talvez seja esse o segredo.
A Morte não é Deus, nem ela nem eu saberemos nunca explicar misteriosa força onipresente. A Morte não aparece para todos, seu critério é aleatório, por vezes conflituoso com o Destino, mas no final de todo expediente ela leva todos aqueles desencarnados a um barco, e embora eu tenha estado incontáveis vezes nesse barco, não consigo, nem deveria, me lembrar aonde ele nos leva. E esses detalhes a Morte jamais compartilha.
Terminamos o chá.
Antes de bater a porta, a Morte diz "Até breve!".
Nunca sei se será o chá. Ou o barco.
(A Morte adora um suspense)
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