Era
madrugada e os créditos do filme rolavam pela tela, mas na minha mente eu
pintava um crepúsculo lindo de tom flamejante e brisa fria, promessas do
outono. E ela estava lá, minha eterna companheira de cabelos finos e
esvoaçantes como teia de aranhas que eu terrivelmente detesto, me desculpe. Lá
estava ela, com os olhos escuros e marejantes, sempre uma presença morna e
torturante não importa por quantos becos eu me enfie, quantos paralelípedos eu
conte pelo caminho, quantos calos a minha bota favorita me causa e causará, ela
estará lá, como está aqui – nessa sala que se enche com o som do ventilador de teto, ou nesse
crepúsculo em chamas frias.
Seu
abraço é tão perturbador, tão esmagador, tão irrejeitável. Seus cabelos finos
voam numa tempestade invisível. Por que você não me deixa? Por que você não me
permite nunca ter olhos secos, ao invés desses marejados que absorvem toda a
vida como se fosse pele. Pele molhada. Olhos marejados. A vida dói muito por
ser bela e cruel, e você não me perdoa, mas também não ri de minha desgraça.
Você está sentada aqui comigo, mãos dadas – elas nunca se soltaram -, e eu te
aceitei como a erva daninha que é. Que se alonga por todo o meu corpo, que me mostra
ira e redenção, que me mostra vida e morte, que me mostra a felicidade mais
triste que há porque o sabor que você dá às coisas tem sempre um toque amargo,
sempre, sempre, sempre.
Percorre
meu corpo, suas teias me enveredam e não consigo nunca encontrar a feiura
nisso. Belo demônio, e eterno, e constante, e eu mesma. Você sorri nessa luz de crepúsculo, esmaga
meu peito e o eleva, simultaneamente. Nisso, a venda marejada.
Nunca
vi olhos tão escuros, tão cruelmente tentadores. Tão melancolia.
No
crepúsculo de chamas outonais, somente eu. E a dor constante, e o gosto de
vício, e a vida se escapando a cada expiração, me inundando a cada inspiração.
E a dor, de novo, sempre. Você em mim, de novo, sempre. Uma coroa de alecrim
selvagem. Teu cheiro é alecrim, sim. Teu cheiro é de cantiga triste.
Teus
olhos, Melancolia, é o caos inquestionável.
Teus
olhos, Melancolia, são irresistíveis.
Nenhum comentário:
Postar um comentário