sábado, abril 25, 2015

Melancolia



Era madrugada e os créditos do filme rolavam pela tela, mas na minha mente eu pintava um crepúsculo lindo de tom flamejante e brisa fria, promessas do outono. E ela estava lá, minha eterna companheira de cabelos finos e esvoaçantes como teia de aranhas que eu terrivelmente detesto, me desculpe. Lá estava ela, com os olhos escuros e marejantes, sempre uma presença morna e torturante não importa por quantos becos eu me enfie, quantos paralelípedos eu conte pelo caminho, quantos calos a minha bota favorita me causa e causará, ela estará lá, como está aqui – nessa sala que se enche com  o som do ventilador de teto, ou nesse crepúsculo em chamas frias. 


Seu abraço é tão perturbador, tão esmagador, tão irrejeitável. Seus cabelos finos voam numa tempestade invisível. Por que você não me deixa? Por que você não me permite nunca ter olhos secos, ao invés desses marejados que absorvem toda a vida como se fosse pele. Pele molhada. Olhos marejados. A vida dói muito por ser bela e cruel, e você não me perdoa, mas também não ri de minha desgraça. Você está sentada aqui comigo, mãos dadas – elas nunca se soltaram -, e eu te aceitei como a erva daninha que é. Que se alonga por todo o meu corpo, que me mostra ira e redenção, que me mostra vida e morte, que me mostra a felicidade mais triste que há porque o sabor que você dá às coisas tem sempre um toque amargo, sempre, sempre, sempre. 


Percorre meu corpo, suas teias me enveredam e não consigo nunca encontrar a feiura nisso. Belo demônio, e eterno, e constante, e eu mesma.  Você sorri nessa luz de crepúsculo, esmaga meu peito e o eleva, simultaneamente. Nisso, a venda marejada. 


Nunca vi olhos tão escuros, tão cruelmente tentadores. Tão melancolia. 


No crepúsculo de chamas outonais, somente eu. E a dor constante, e o gosto de vício, e a vida se escapando a cada expiração, me inundando a cada inspiração. E a dor, de novo, sempre. Você em mim, de novo, sempre. Uma coroa de alecrim selvagem. Teu cheiro é alecrim, sim. Teu cheiro é de cantiga triste. 


Teus olhos, Melancolia, é o caos inquestionável. 


Teus olhos, Melancolia, são irresistíveis.

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