domingo, abril 26, 2015

A Morte e o Chá

A Morte veio me visitar.
Deixou sua lustrosa foice ao lado da porta, pendurou o capuz de sombras no cabideiro, e tirou os sapatos (ela sabe bem que detesto que entrem com o sapato da rua em casa). Seu rosto era o mesmo de toda a existência, e só foi preciso um resmungo seu para eu lhe trazer o chá. De hortelã.
Não há como eu lhe descrever a Morte, afinal, estragaria toda a surpresa quando ela viesse lhe buscar, não é mesmo? Quando ela viesse em sua plenitude, com foice e capuz. Nos tornamos íntimas, a Morte e eu, nos encontramos tantas vezes que seria inadmissível não nos reconhecermos. Ela chega, se desfaz de toda a formalidade mórbida de seu uniforme, e toma seu chá. Sempre hortelã. 
Conversamos sobre banalidades, sobre o tempo e se vai chover(é provável que sim, diz a Morte, essa parte do globo tem tido dias tão quentes...). 
Ela ri com gosto da sua releitura feita pelas artes, "É intrigante como o ser humano, um bichinho tão banal, vez e outra consegue superar a mediocridade. Não me leve a mal, o seu chá é excepcional...". Não ponho açúcar no chá, talvez seja esse o segredo. 
A Morte não é Deus, nem ela nem eu saberemos nunca explicar misteriosa força onipresente. A Morte não aparece para todos, seu critério é aleatório, por vezes conflituoso com o Destino, mas no final de todo expediente ela leva todos aqueles desencarnados a um barco, e embora eu tenha estado incontáveis vezes nesse barco, não consigo, nem deveria, me lembrar aonde ele nos leva. E esses detalhes a Morte jamais compartilha. 
Terminamos o chá.
Antes de bater a porta, a Morte diz "Até breve!". 
Nunca sei se será o chá. Ou o barco.
(A Morte adora um suspense)

sábado, abril 25, 2015

Melancolia



Era madrugada e os créditos do filme rolavam pela tela, mas na minha mente eu pintava um crepúsculo lindo de tom flamejante e brisa fria, promessas do outono. E ela estava lá, minha eterna companheira de cabelos finos e esvoaçantes como teia de aranhas que eu terrivelmente detesto, me desculpe. Lá estava ela, com os olhos escuros e marejantes, sempre uma presença morna e torturante não importa por quantos becos eu me enfie, quantos paralelípedos eu conte pelo caminho, quantos calos a minha bota favorita me causa e causará, ela estará lá, como está aqui – nessa sala que se enche com  o som do ventilador de teto, ou nesse crepúsculo em chamas frias. 


Seu abraço é tão perturbador, tão esmagador, tão irrejeitável. Seus cabelos finos voam numa tempestade invisível. Por que você não me deixa? Por que você não me permite nunca ter olhos secos, ao invés desses marejados que absorvem toda a vida como se fosse pele. Pele molhada. Olhos marejados. A vida dói muito por ser bela e cruel, e você não me perdoa, mas também não ri de minha desgraça. Você está sentada aqui comigo, mãos dadas – elas nunca se soltaram -, e eu te aceitei como a erva daninha que é. Que se alonga por todo o meu corpo, que me mostra ira e redenção, que me mostra vida e morte, que me mostra a felicidade mais triste que há porque o sabor que você dá às coisas tem sempre um toque amargo, sempre, sempre, sempre. 


Percorre meu corpo, suas teias me enveredam e não consigo nunca encontrar a feiura nisso. Belo demônio, e eterno, e constante, e eu mesma.  Você sorri nessa luz de crepúsculo, esmaga meu peito e o eleva, simultaneamente. Nisso, a venda marejada. 


Nunca vi olhos tão escuros, tão cruelmente tentadores. Tão melancolia. 


No crepúsculo de chamas outonais, somente eu. E a dor constante, e o gosto de vício, e a vida se escapando a cada expiração, me inundando a cada inspiração. E a dor, de novo, sempre. Você em mim, de novo, sempre. Uma coroa de alecrim selvagem. Teu cheiro é alecrim, sim. Teu cheiro é de cantiga triste. 


Teus olhos, Melancolia, é o caos inquestionável. 


Teus olhos, Melancolia, são irresistíveis.