segunda-feira, julho 20, 2015

Poeta

O sangue escorria pelas bordas da cena, era uma visão lamentável. O poeta estirado no chão empoçado de sangue viscoso, o líquido vital saindo, agora já sem pressão, do toco de ambos os pulsos. Deceparam-lhe ambas as mãos!
Jazia o poeta, cujos olhos escancarados lhe configuravam o desesperançoso aspecto de peixe. De sua boca babavam piadas sádicas que nunca mais veriam o gozo de suas mãos.  
Foi poeta maldito. Deceparam-lhe as mãos!
Despurificou donzelas, canonizou putas. Deceparam-lhe as mãos! 
Desmentiu o amor esfinge de Camões, trucidou os tolos românticos. Deceparam-lhe as mãos!

Riu de Deus enquanto acendia uma fogueira para o Diabo, afinal era este que existia nele próprio, maldito. 

Ninguém chorou sua angústia, apenas suas poesias cruéis acumulavam lágrimas. Não choraram pelo ser, mas por suas mentiras letradas.
Uma cena lamentável de se ver, as mãos de um poeta decepadas.



3 comentários:

Juliana Gelmini disse...

Forte isso!!
"Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas."
(Cecília Meireles)

Lalesca disse...

Eu descobri esse poema da Cecília depois que escrevi o texto, ela é maravilhosa! Não há poeta que fale mais por mim que ela!

Juliana Gelmini disse...

É um dos meus poemas preferidos! :)
Muitos pássaros e palavras que sonham!!