domingo, novembro 02, 2014

O rodopio das folhas douradas

(na verdade, a sensação é de algo que te suga de dentro pra fora)

As folhas leves e douradas caem dançando, revelando almas distantes que perdi pelo caminho. Aqui, nesse prédio neoclássico exibicionista, o silêncio é uma memória.
Sobre as folhas douradas: uns pegam as folhas para si, a beleza eterna e esquecida no baú de quinquilharias. Outros as partem, expandindo a beleza pelo chão de mármore. Já as crianças, essas se misturam e tornam-se as próprias folhas douradas. 
O fotógrafo perdeu uma cena linda: nossos olhos seguiam a trajetória das folhas, tímidos pela vida adulta, enquanto as mãozinhas da infância estendiam-se ao ar, esperando o tempo colidir consigo mesmo para apanharem as folhas que caíam. As crianças têm uma própria linguagem, brilhante demais para nós, os outros, conseguirmos entender. 
Perdoe-nos, crianças! Nós conseguimos ser miseravelmente sérios em nossa tristeza particular. Perdoe-nos por percebermos as folhas quando elas já estão estateladas no chão.
A magnitude da abóboda, quando realizada, é vertiginosa. E pesada. Pesa em meus olhos, pesa em minha noção espacial. É absoluto o contraste entre o concreto e a folha. No meio do saguão há uma luz alaranjada que vem de fora, dos raios solares que ainda não morreram.

(a melancolia é tal qual uma erva daninha)

Tudo o que nos é belo precisamos possuir, não há beleza em liberdade para nossos olhos tecnológicos e mãos nervosas. A luz termina de morrer aqui dentro, dentro desse saguão majestoso que comporta os oposto e os exibe como numa vitrine. Ao mesmo tempo que exibidos, porém, escondem-se, esgueiram-se por pilastras frias e clichês.

Nós somos solitários. 
(Nós não somos solitários)
Quando colocamos a cabeça sobre nosso travesseiro, nos fechamos em nós mesmos.
(Quando outros milhares colocam suas cabeças sobre seus travesseiros, fecham-se em si mesmos)
Nós somos solitários.
(Nós não somos solitários)



Há pessoas que guardam migalhas da beleza para si.

sábado, agosto 16, 2014

Casulo

Amarras gosmentamente repulsivas envolvem o pequeno longo corpo de fibras frágeis e asas de seda que se ligam por nervos pálidos ao que seria um ombro caduco e fraco.
O bichinho mal respira mau respiro. 
Na garganta, um verme com micro-espinhos que não vai nem volta, mas que fica parado no eterno lugar, atiçando.
Da boca só escorre sangue babado.
O braço é curto, e dos dedos as unhas caem em migalhas. O sabugo de carne rosada fica ardendo exposto.
Pobre vidinha de dar dó que força, sem unhas, um casulo de vidro. Que vive na escuridão do sulco vazio dos glóbulos oculares.
Chora o bichinho de raiva e de dor pois não sabe se é borboleta ou aberração, não sabe... 
O sal das lágrimas mirradas queima sua pelezinha que mais parece papel velho molhado.
E num suspiro insignificante, e mal suspirado, a melancolia se alastra como uma névoa venenosa, fadando aquela vidinha tão miserável à negação da existência plena fora de todo o sadismo de um casulo já podre.

terça-feira, julho 22, 2014

Sobre a praça

Meu bem, sempre iremos nos encontrar na praça, ela é tão pulsante, intensa e em eterno movimento. Lugar dos apaixonados e dos mendigos, dos desocupados e daqueles que tomam fôlego para mais um mergulho corporativista.
Dos pedintes de um real (pra inteirar pro almoço).
Dos olhos perdidos e de outros gulosos.
Dos que esperam e dos que espreitam.
E nessa miscigenação, o som da cidade. Revistas-manifestos, poesias pobres e baratas, melodias de músicos efêmeros.
E nessa praça, meu bem, decidimos nossa vida com um cara-e-coroa. A moeda de dez centavos rola pelo ar quando é tarde da noite e na praça só restam os espíritos, e nós. Já faz mil anos, mas a memória é de tinta fresca, e a praça é a mesma, e as pessoas são da mesma carne e os espíritos ainda vagueiam.

sábado, junho 28, 2014

Caneta

A caneta se não trava, se atropela, perdida, nem sabe por onde começar. Nem há um começo, não se pode medir um fluxo, não se pode pontuar suas coordenadas e referências em mapas cartográficos, em GPS tecnológicos. 
A caneta nem sabe o que falar, só sabe da necessidade do ato de estar em movimento, esboçando um inconsciente escondido pelas cortinas de cílios alongados e pintados de preto.
A caneta não sabe de nada, é tola em suas ambições. Se pára, pára como uma bateria em seus últimos momentos, cujas tentativas supersticiosas de reanimação são frustradas. 
A caneta é balsâmico, porém. 
É ópio, é o exorcismo do ócio.
A caneta é a máquina de teletransporte que desintegra o corpo e suas ínfimas partículas atômicas. 
A caneta é arma branca, azul, vermelha, preta, roxa, ou qualquer outra cor.
Você pára e percebe que a caneta é tudo e nada, tudo ou nada.
É plástico e tinta. 

quarta-feira, junho 04, 2014

A presunção da ideia sobre o amor

O amor era uma coisinha estranha dentro do peito e de essência contraditória. Em contato com o miocárdio, apertava-o até doer para depois soltá-lo com toda a delicadeza do mundo. Descontrolava a respiração e revirava o estômago cheio de suco gástrico a qualquer momento que lhe desse na telha. Elevava ao Infinito a pobre alma sorridente. E quando ele tristemente morria, quietinho em sua significância, quase como se não tivesse existido, um tempo depois renascia, voltando a deixar os poetas sem palavras. 

O amor faz piada dos tolos que fingem não vê-lo e que trancam-se em quartos eternamente cinzas. 
O amor despurifica as donzelas e humaniza as putas. 
O amor é vida, e com ela só aguentam os corajosos.

domingo, maio 11, 2014

Aleatoriedades do tédio acadêmico

Nas baladas do acordeão francês, na contemplação das paredes brancas da sala de estar com as luzes do lustre acesas, a mente não se aquietava na realidade do presente, transbordando a si mesma para fora das paredes cranianas bregas. E quando a mente parava pelo cansaço que viajar lhe causava após tanto tempo curtida no sedentarismo, os olhos vagueavam e quando se deparavam com aquela sala de cem anos, a angustia era tanta que obrigavam a mente a continuar pela sanidade de todos que o tédio já ameaçava há algum tempo.
A gata confundiu-se com um suricato quando postou-se em pé sobre a bancada, mais para um bibelô que para um ser vivo cheio de vontades que os humanos interpretavam erroneamente. Enquanto isso, o acordeão embalava a fuga desesperada da mente, sua libertação do pão de todo dia que de tantos dias já havia se tornado algo disforme que os olhos não reconheciam e o nariz repugnava. E quando chegaram numa rua em descida de paralelepípedos perfeitamente alinhados e molhados por uma chuva fina que só se materializava a trinta centímetros do chão, lavando apenas os pecados dos pés, a mente e os olhos entraram em consenso sobre suas vontades salvo pela inquietação da curiosidade que lhes tirava a paz sem que percebessem. Desceram a rua da chuva purificadora, sem olhar para o borrão disforme que ficava para trás, do qual a cantoria do acordeão continuava a emanar e para sempre assim seria pois a música já havia decidido nunca mais abandoná-los quando percebeu que sem ela a melancolia se manifestava como uma erva daninha, consumindo o melhor de tudo. As casinhas de madeira que ladeavam a rua rangiam com os passos dos fantasmas sorridentes, afogados em suas próprias lembranças, e que apareciam através das janelas com os olhos cheios de passado.
A rua desceu até uma praça com banquinhos de pedra, com balanços que divertiam o vento e a brisa, com gangorras equilibradas e com um freixo antigo e triste, choroso da sina da eternidade, conhecedor e saturado de segredos que lhe serviam de raiz. Num de seus galhos, um pequeno passarinho vermelho escarlate não cantava, mas prometia revelações do futuro por um punhado de alpiste. Nem a mente, nem os olhos carregavam algo consigo, então o futuro lhes foi negado, mas ouviram sobre os segredos antigos de uma das raízes do freixo que saltava para fora da terra. Ouviram palavras que não conheciam, palavras também antigas e indecifráveis que enclausuraram a árvore ao silêncio do conhecimento.
A chuvinha parecia nunca estiar, fazendo pequenos córregos nas sarjetas que iam em direção contrária à rua em ladeira, desembocando num outro lugar. A mente e os olhos sentaram num dos banquinhos da praça circular quando um velho cego apontou na direção contrária da praça, sentando em outro banquinho de pedra a sua frente. A barba quase chegava ao chão, e sua ponta era molhada pela chuva, os olhos eram brancos e opacos da cegueira dos muitos anos, e a pele magra e flácida dos lóbulos das orelhas lhe chegava ao queixo. Da bolsa feita de trapos que carregava consigo, tirou algumas rosas brancas e um canivete, e passou a tarde inteira tirando os espinhos, mastigando-os e cuspindo de volta, desmanchando as rosas e jogando suas pétalas ao bel prazer do vento que as elevavam aos céus e já bem no alto elas se dissipavam como fumaça enquanto os espinhos mastigados e babados germinavam no chão da praça e deles brotavam mais rosas brancas que o velho colheu ao final da tarde, e colocou em sua bolsa de trapos antes de ir embora para onde quer que fosse. A mente e os olhos não souberam dizer se ele também era um fantasma, ou era alguma outra figura distinta daquele lugar distinto para o qual a imaginação e o transe do acordeão francês lhes transportaram.

Quando chegada a hora de partirem, se recusaram, fugiram para mais longe com pavor das paredes brancas demais. Correram tanto que se perderam um do outro, e no fim, quando tudo era um turbilhão de tudo, perderam-se de si mesmos.

sábado, março 22, 2014

Pra não dizer que não falei dos vinte

Eu já estava acostumada com a sonoridade do "dezenove" quando trezentos e sessenta e cinco dias se passaram, sem dó, nem piedade, lenço ou documento, tirando-me por fim da casa do "dez", roubando da ponta da minha língua o prefixo e me jogando porta a dentro dos vinte. 

(A verdade é que se você espera muito, você nunca estará pronto, sabe-se lá o porquê.)

Eu pensei em falar das experiências de cima de um pedestal de presunçosa maturidade, mas lembrei dos medos e dos choros bobos, então resolvi ficar quieta.

(A outra verdade é que você nunca chega no "suficiente" quando percebe que o universo é infinito e você está contido nele, assim como ele em você.)

Quando tinha trezes anos, eu costumava mentir a idade dizendo que tinha quatorze porque - por alguma razão que só existia na minha mente - com quatorze anos a pessoa era mais respeitável. Depois eu aprendi que não adianta ser um exímio contador de piadas, às vezes você mesmo acaba sendo uma. Hoje digo que tenho vinte e tem gente que não acredita, assim como tem gente que não acredita que o meu nome é o meu nome. É apelido, ou é piada?
Todos riem. Eu rio. É polaco.
Ontem, depois de tantos elogios nessa vida, decidi começar a vender os meus conselhos, com o dinheiro irei pagar uma psicóloga. Vou me ouvir monologar, vou achar que ela não sabe de nada se não ligar muito para Jung. Veja bem, essa minha lua em peixes é um prato cheio!
(esse trânsito está congestionado, e minhas palavras também)
Pra não dizer que não falei dos vinte, volto a repetir: ser esponja é foda pra caralho, tanto no bom quanto no mau sentido, nada além disso. Mas no caminho contra o vento, aprendizado.